COMO É QUE OS CORTICOSTERÓIDES CAUSAM PERDA ÓSSEA
O osso é remodelado activamente ao longo da vida adulta. Mesmo na ausência de exposição aos corticosteróides, 25% do osso trabecular e 3% do osso cortical são remodelados anualmente.
Os osteoclastos e os osteoclastos são os principais tipos celulares responsáveis pela renovação óssea. Os osteoblastos são células cubóides que se encontram em agregados na superfície do osso. Eles produzem uma camada de osteóide que sofre maturação ao longo dum período de 10 dias através dum processo de calcificação que, ao longo de vários meses, resulta em osso novo. Os osteoclastos são células gigantes multinucleadas responsáveis pela reabsorção óssea. Eles fixam-se à matriz óssea através de receptores de integrina, que ajudam a criar bolsas de espaço extracelular rodeados por pregas de membrana osteoclástica. Este processo cria lisossomas secundários caracterizados por um pH baixo e por um ambiente rico em enzimas no qual ocorre a degradação da matriz óssea. Quando os glucocorticóides causam uma reabsorção óssea numa taxa mais rápida que a formação óssea, isso resulta em osteoporose.
Os receptores dos corticosteróides dividem-se em dois tipos: os mineralocorticóides (que se encontram no SNC e no tecido renal) e os glucocorticóides (presentes em virtualmente todas as células do corpo). Os receptores de glucocorticóides medeiam os efeitos anti-inflamatórios e metabólicos dos corticosteróides. Quando os glucocorticóides se fixam aos receptores celulares, o complexo resultante migra para o núcleo, onde é induzida a expressão de genes. Consequentemente, todos os níveis da cascata inflamatória são inibidos. Os glucocorticóides são mais eficazes na supressão dos linfócitos T e das células natural killer e tendem a ser menos eficazes na inibição dos linfócitos B maduros. Os corticosteróides também suprimem as citoquinas pró-inflamatórias, tais como o factor de necrose tumoral alfa e a interleucina 1. Eles têm efeitos inibitórios sobre os mediadores inflamatórios, tais como o interferão gama, a prostaglandina E2 e os leucotrienos. O resultado global parece ser a supressão preferencial da imunidade celular e não da imunidade humoral.
A OIC ocorre em consequência de múltiplos efeitos directos e indirectos dos glucocorticóides sobre a formação e reabsorção do osso, o metabolismo do cálcio e da vitamina D e a modulação das hormonas sexuais. Os glucocorticóides inibem directamente a proliferação dos osteoblastos e a síntese da matriz e causam um declínio nos níveis circulantes de osteocalcina. Eles têm também sido implicados na apoptose dos osteoblastos. Uma vez que a formação óssea está associada à massa corporal e à força muscular, os efeitos catabólicos dos corticosteróides sobre o músculo podem reduzir indirectamente a formação de osso. Assim, os glucocorticóides diminuem a formação de osso em consequência duma miopatia induzida pelos glucocorticóides em consequência da perda associada do efeito trófico do stress muscular sobre o osso.
Os corticosteróides também reduzem os níveis de hormonas sexuais. Eles suprimem especificamente os estrogénios, a hormona luteínizante e a hormona folículo-estimulante nas mulheres, que normalmente inibem a reabsorção óssea. Além dis so, a perda de estrogénios está associada a um aumento do número de osteoclastos totais. O hipogonadismo resultante favorece a actividade osteoclástica em relação à osteoblástica.
Acresce que os glucocorticóides podem acelerar indirectamente a reabsorção óssea ao causarem uma calciúria excessiva. A disponibilidade reduzida de substrato para a formação óssea que daí resulta é agravada pela alteração da reabsorção tubular renal de cálcio causada pelos glucocorticóides, assim como pelos níveis séricos reduzidos de 1,25 hidroxivitamina D. Esta perda de cálcio causa um hiperparatiroidismo secundário, conduzindo a uma reabsorção de osso adicional.' Além disso, os glucocorticóides também diminuem a massa óssea trabecular ao interferirem com as citoquinas activas no osso, tais como os factores de crescimento insulina-like.
A OIC torna-se detectável através de métodos radiológicos sensíveis logo desde o primeiro mês de terapêutica sistémica com glucocorticóides. A absorciometria por raios X de dupla energia (DEXA) e a TAC quantitativa são métodos radiológicos disponíveis para detectar uma massa óssea baixa. Destas técnicas, a DEXA é menos dispendiosa e mais amplamente disponível. Os T-scores, que são usados para a tomada de decisão clínica, representam o número de desvios padrão abaixo ou acima do pico de massa óssea numa população de referência de adultos jovens do mesmo sexo. Segundo a Organização Mundial de Saúde, um T-score acima de —1 reflecte uma densidade óssea normal, entre —1 e —2,5 corresponde a uma osteopénia e abaixo de —2,5 significa osteoporose.
Um T-score abaixo de —2,5 associado a uma história pessoal de fracturas indica uma osteoporose grave.
Os indivíduos com maior risco de OIC são os que apresentam uma renovação óssea elevada ou os com um desequilíbrio pré-existente entre a reabsorção e a formação, incluindo as crianças até aos 15 anos de idade, os adultos com mais de 50 anos, as mulheres pós-menopáusicas e os doentes imobilizados. A perda óssea ocorre principalmente em áreas de renovação elevada, como o osso trabecular das vértebras, e as fracturas espontâneas resultantes envolvem frequentemente as vértebras ou as costelas.4•5 Num estudo, os utilizadores de corticosteróides tinham uma probabilidade 2,7 vezes maior de sofrerem uma fractura do colo do fémur em comparação com os não utilizadores.
A terapêutica com glucocorticóides induz uma doença óssea metabólica significativa ao fim de pouco tempo de tratamento. Mesmo um tratamento com corticosteróides em baixas doses durante 6 semanas encontra-se associado a efeitos adversos sobre o metabolismo ósseo.' Num estudo, 10 mg/ dia de prednisona ao longo dum período de 2 meses afectaram adversamente o metabolismo do cálcio e do osso ao desacoplarem a formação e a reabsorção ósseas.' Outro estudo demonstrou que 20 semanas de tratamento com prednisona em doses baixas induziram um declínio na densidade mineral óssea trabecular média de 8,2% nos doentes com artrite reumatóide.8 A susceptibilidade à fractura está dependente da posologia e o risco global de fractura está aumentado durante a terapêutica com corticosteróides orais, tornando-se aparente dentro dos primeiros 3 meses de tratamento.9 Assim, a terapêutica preventiva para a osteoporose deve começar quando os glucocorticóides são prescritos pela primeira vez.